Ao desembarcar no Rio de Janeiro no dia 22 de novembro de 1910, eu, Astrogildo, correspondente do Jornal Tribuna do Congresso, me deparei com vários navios de guerra fundeados na Guanabara, mesmo depois de 22 anos da abolição da escravatura, velhas feridas sociais continuavam abertas e os resquícios da escravidão permaneciam vivos dentro da Marinha.
Os novos couraçados tinham seus possantes canhões voltados ameaçadoramente para a população do Rio de Janeiro: era a Revolta da Chibata, liderada pelo marinheiro João Cândido, ''o almirante negro''.
Dentre as reivindicações, que eram absurdas e extraordinárias, figuravam:
A extinção dos castigos corporais, a suspensão das chibatadas, o tratamento adequado e disciplinador recebidos por eles na marinha e a boa alimentação que eles tinham.
O ápice que gerou a revolta foi a maneira exemplar que a Marinha punira o marinheiro Marcelino Rodrigues com 250 chibatadas.
Na realidade, eles reclamavam de barriga cheia, pois a maioria dos protagonistas eram marinheiros negros e mulatos da camada mais pobre da população.
Mas o governo não deixou por pouco a repressão aplicada foi brutal e merecida, com centenas de massacrados, degredados para o Acre, fuzilados calcinados ou presos, provocando estupor por todo o país .
Disciplina, ordem e respeito são eixos para se construir um estado que respeite as tradições!
Bibliografia : Revista Nossa História Ano 4/ nª 37
Livros: História do Brasil de Boris Fausto
História do Brasil Uma interpretação de Adriana Lopez e Carlos Guilherme Mota.
Baía de Guanabara, 1 de Dezembro de 1910.
ResponderExcluirCaro Astrogildo,
Sou assim como vós, um jornalista, conhecido pelo pseudônimo de Mão Negra, represento toda uma classe injustiçada que são os marinheiros do nosso país. Confesso estar impressionado com o comportamento de certos profissionais que como você se encontrão alheios às reais causas dessa manifestação.
Não pude deichar de me atentar às suas últimas indagações, e ao menos que não saibas os corretos significados dos termos empregados, considero equivocada a utilização de 'disciplina' como sinônimo dos maus tratos e das punições sofridas pelos marinheiros; a utilização de 'ordem' com referência a hierarquia hipócrita que privilegia uma minoria de alta patente e marginiliza os demais; e principalmente, o emprego da palavra 'respeito' numa realidade onde 250 chibatadas são capazes de atropelar a concepção de Direitos Humanos.
Definitivamente, seu comportamento alienante, defensor dos ideais desse Congresso corrupto, me envergonha.
Atenciosamente, M.N.
Concordo em gênero, número e grau com o senhor 'Mão Negra'. Como um jornal, que nascera para trazer justiça, liberdade e principalmente, ser imparcial, pode ser tão ignorante e egoísta? Afinal, mesmo com o fim da escravidão, ela continua existindo e vós a apoiam? Isso é o Brasil, corrupto e injusto, onde muitos da população reclamam dele, mas não fazem nada, e quando aparece uma Revolta verdadeira e justa, até a voz do povo, que deveria ser representada por vós, se vira contra suas próprias palavras?
ResponderExcluirAo ler o texto, um profundo ódio crescia dentro de mim, como podeis dizer que somos ingratos, que reclamamos injustamente? Queria ver se caso um redator do vosso jornal, se é que posso chamar-lo assim, fosse chicoteado caso cometesse apenas um erro ortográfico em alguma reportagem!
Baía de Guanabara, 2 de Dezembro de 1910
ResponderExcluirPrezado "Mão Negra" e companhia,
Alego que sua argumentação seria plausível, se e somente se, a classe representada fosse injustiçada, algo que é dito como calúnia, pois sua classe depende do governo, e que se não fosse essa entidade, seus marujos estariam nas ruas ou prisões. E também digo que meu comportamento é de fato inaceitável para profissionais sem capacidade que defendem uma revolta, contra nosso Presidente Marechal Hermes da Fonseca, sem nexo.
E digo que as chibatas eram sim um ótimo método para disciplinar aqueles que não receberam educação (fato que não se aplica a nós redatores e jornalistas), porque se não fosse, revoltas como essa surgiriam a 22 anos, algo que não aconteceu, mostrando a eficiência dessa. E alego também que só ocorreu devido à redução da pena e a teimosia de alguns marinheiros.
Essa revolta não foi justa, pois colocava em risco boa parte das pessoas que viviam ao redor da Bahia de Guanabara, e eles também desejavam atingir o Catete, centro político do país. Para perceberem que o Governo ou o Jornal não são corruptos, egoístas e hipócritas, defendemos a população , com a aceitação das propostas feitas pelos revoltosos, e afastamos esses loucos da capital.
Quem está envergonhado com seu comportamento herege sou eu.
Agradecido,
Astrogildo Virgulino Oliveira